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Nutrição clínica além das restrições: como manter o aporte calórico durante a terapia-alvo
Manter o peso durante um tratamento com terapia-alvo pode parecer um desafio, especialmente quando os efeitos colaterais surgem sem avisar. Muitas pessoas cometem o erro de focar apenas no que devem evitar, esquecendo que o corpo precisa de combustível extra para lidar com a toxicidade dos medicamentos e manter o sistema imunológico operante. A nutrição, neste cenário, deixa de ser uma questão de dietas restritivas e torna-se um pilar fundamental da estratégia terapêutica.
O papel da densidade calórica no dia a dia
Quando o apetite diminui ou o paladar sofre alterações — algo comum em terapias-alvo que impactam as mucosas ou o trato gastrointestinal —, a estratégia mais eficaz é aumentar a densidade calórica em volumes menores de comida. Em vez de tentar ingerir pratos grandes, o segredo está em enriquecer o que já está sendo consumido.
Um exemplo prático é o uso de gorduras boas e proteínas concentradas. Adicionar uma colher de azeite de oliva extravirgem ou óleo de abacate a uma sopa não altera o sabor de forma significativa, mas adiciona calorias cruciais. Da mesma forma, incluir pasta de amendoim, iogurte grego ou sementes trituradas em uma vitamina pode transformar uma bebida simples em uma refeição completa do ponto de vista nutricional. O objetivo aqui não é apenas “encher a barriga”, mas garantir que cada garfada entregue a energia necessária para que o organismo não recorra à reserva muscular para se sustentar.
Ajustando a rotina conforme os sintomas
A terapia-alvo pode causar sintomas específicos, como náuseas, diarreia ou feridas na boca. O plano alimentar precisa ser maleável para contornar esses obstáculos. Se a mastigação está dolorosa por causa de estomatite, o foco deve ser em alimentos de consistência pastosa ou líquida, mas que sejam nutritivos. O uso de suplementos orais prescritos pelo nutricionista clínico também entra como um aliado, não como um substituto absoluto, mas como um suporte para o aporte calórico que, por vias naturais, tornou-se difícil de alcançar.
Um erro comum é o medo de certos grupos alimentares. Muitas vezes, pacientes cortam carboidratos por receio ou por conselhos baseados em mitos sobre a alimentação do tumor. No entanto, durante o tratamento, o carboidrato complexo é a fonte de energia imediata que poupa as proteínas musculares de serem catabolizadas. O acompanhamento multidisciplinar, que integra o oncologista e o nutricionista, é quem deve definir essa balança, garantindo que a individualidade biológica do paciente seja respeitada.
A importância da frequência e da textura
A ideia de que precisamos fazer três grandes refeições ao dia pode ser contraproducente quando se está enfrentando efeitos colaterais. É muito mais eficiente para o metabolismo e para a tolerância gástrica fracionar a ingestão em cinco ou seis pequenas porções. Essa abordagem reduz a sensação de estufamento e evita que o paciente passe longos períodos em jejum, o que frequentemente agrava a fadiga oncológica.
Observe também a temperatura dos alimentos. Pratos muito quentes podem exalar odores mais intensos, o que costuma ser um gatilho para náuseas em quem está sob efeito de medicações específicas. Optar por alimentos em temperatura ambiente ou mais frios pode ser uma solução simples, porém poderosa, para manter o conforto durante as refeições.
Além disso, a hidratação nunca deve ser subestimada. A terapia-alvo exige que os rins funcionem com eficiência para processar os metabólitos dos fármacos. Beber água, chás claros ou água de coco ao longo do dia ajuda não só na hidratação celular, mas também na manutenção da mucosa oral, facilitando o processo de alimentação.
O cuidado oncológico bem-sucedido é aquele que olha para o indivíduo como um todo. A nutrição não deve ser uma fonte de estresse adicional, mas sim um alicerce. Ouvir os sinais do corpo, adaptar a textura e a frequência das refeições e manter uma comunicação aberta com a equipe médica são os passos mais seguros para atravessar esse período com a reserva física necessária para o sucesso do tratamento.